Fome de quê, exatamente?
- Flavia Fernandes
- há 2 dias
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Existe uma fome que não avisa quando termina. A pessoa come, o corpo já deu o sinal de que está satisfeito há um tempo, e mesmo assim esse sinal não chega. Não porque ela o ignore de propósito, mas porque, em algum momento, parou de conseguir ouvi-lo.
Fome e saciedade são sinais do corpo. A gente aprende a reconhecê-los desde muito cedo, muito antes de ter palavras pra qualquer coisa. Mas em quadros mais graves de transtorno alimentar, essa comunicação interna se perde. O corpo continua enviando os sinais, só que a pessoa não confia mais neles, ou nem os percebe. Come sem fome, para sem saciedade. Come, e a fome continua ali, só que agora é uma fome de outra coisa.
Na psicanálise, pensamos a comida como algo que pode carregar muito mais do que nutrição. Desde muito cedo, comer está ligado a ser cuidado, acolhido, visto. Por isso, quando um sentimento aparece sem que a pessoa consiga colocá-lo em palavras (uma tristeza, uma solidão, algo que dói e ainda não tem nome), o corpo às vezes encontra na comida uma forma de lidar com aquilo que não sabe nomear de outro jeito. Comer vira, por um instante, um jeito de aliviar algo que insiste, mesmo sem se chamar fome.
O problema é que esse alívio dura pouco. E o que vem depois, a culpa, a compensação, a restrição, também é uma tentativa de lidar com algo que continua sem solução. É por isso que esses episódios costumam se repetir tanto: não porque a pessoa "não aprende", mas porque a raiz da questão ainda não foi ouvida.
Reaprender a ouvir esses sinais não costuma ser simples, nem rápido. É parte do que se trabalha num processo terapêutico: não silenciar o sintoma, mas abrir espaço para que aquilo que ainda não tem nome comece a ser reconhecido, primeiro no corpo, depois em palavras. Antes de qualquer resposta, existe uma pergunta capaz de abrir esse caminho: fome de quê, exatamente?
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