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A virtude que virou doença​​

  • Foto do escritor: Flavia Fernandes
    Flavia Fernandes
  • há 1 dia
  • 2 min de leitura

Dificilmente alguém desconfia da pessoa disciplinada. Quem come "certo", treina todos os dias, tem regras claras sobre o próprio corpo, costuma ser vista como exemplo. É elogiada por isso. Vira até uma espécie de modelo: força de vontade, responsabilidade, cuidado consigo mesma. O problema é que, entre esse elogio e o adoecimento, a distância pode ser bem menor do que parece.

Quase nenhum transtorno alimentar começa como transtorno alimentar. Começa como dieta. Um corte de açúcar, uma reeducação alimentar, uma vontade genuína de cuidar da saúde ou de se sentir melhor no próprio corpo. No início, é isso mesmo: cuidado. E como cuidado costuma ser bem recebido, sobretudo numa cultura que valoriza corpo magro e controle, a resposta de fora reforça o comportamento de dentro. Vêm os elogios, vem a sensação de estar no caminho certo, vem a vontade de ir um pouco além.

É nesse "um pouco além" que a coisa muda de figura, sem aviso e sem hora marcada. A regra que era flexível vira rígida. O cuidado vira controle. E o controle, quando não pode falhar, começa a exigir cada vez mais: menos exceções, menos flexibilidade, menos espaço pra ouvir o que o corpo está realmente pedindo. Os sinais de fome e saciedade, que deveriam guiar a relação com a comida, vão perdendo espaço para a regra. A pessoa para de comer o que o corpo pede e passa a comer (ou deixar de comer) o que a regra determina.

Do lado de fora, muitas vezes continua parecendo saúde, ou pelo menos disciplina admirável. E é justamente isso que torna esse processo tão difícil de identificar, inclusive por quem está vivendo. A mesma pessoa que era vista como exemplo de superação, de força, de cuidado consigo, pode estar, sem que ninguém perceba (às vezes nem ela mesma), no meio de um adoecimento sério.

Não existe uma causa única para isso acontecer. Fatores biológicos, uma sensibilidade maior a ansiedade ou a necessidade de controle, uma cultura que trata corpo magro como sinônimo de valor, momentos de vida marcados por perdas, cobranças ou mudanças bruscas: tudo isso pode se combinar de formas diferentes em cada história. Não existe um perfil único de quem desenvolve um transtorno alimentar, e por isso mesmo é tão difícil apontar, de fora, o momento exato em que o cuidado deixou de cuidar.

Talvez o mais importante não seja encontrar esse momento exato, mas entender que ele existe: que uma mesma prática pode significar coisas muito diferentes dependendo do que está sustentando ela por dentro. Cuidado que vem de escuta é uma coisa. Cuidado que vem de controle e da impossibilidade de falhar é outra, ainda que de fora pareçam idênticos.

 
 
 

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